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Angioplastia Coronariana e Exercício Físico

03.09.2010

 ANGIOPLASTIA E EXERCÍCIO FÍSICO

Revista SOCESP - Ano IV - número - set/out - 2009

 

     Há muito se discute sobre a melhor maneira de se abordar pacientes com doença coronariana e que tenha obstruções de grau importante em uma ou mais artérias. De uma maneira geral, é intuitivo queremos sobrepujar uma obstrução de uma artéria, seja com a tradicional cirurgia de ponte de safena ou mamária, seja com uma angioplastia e colocação de stent. Este tipo de raciocínio foi o que predominou por muitos anos, e pelo qual compartilha ainda muitos cardiologistas, que assim aprenderam durante sua formação.

     Todavia, a doença coronária aterosclerótica tem nuances no seu comportamento evolutivo  que tornam, muitas vezes difícil prever seu desenvolvimento. Um stent colocado pode não impedir a ruptura e a oclusão da artéria, a partir de uma placa logo após o stent inserido ou mesmo em outra artéria.

     Existem várias comparações entre a cirurgia e a angioplastia, mas também com o tratamento clínico, caso do estudo MASS, desenvolvido no Incor. Esta pesquisa, mais o estudo COURAGE, trouxeram informações importantes para se definir uma estratégia inicial de tratamento para pacientes com angina do peito e ou com isquemia.

      Como mensagem geral vale dizer:

·                  1- A presença de uma obstrução por si só, não é suficiente para se indicar um procedimento.

·                  2- Presença e intensidade da isquemia predizem eventos.

·                  3- Exceto lesão do tronco da coronária esquerda e multiarteriais com lesões proximais todas muito graves, ou com sintomas de difícil controle com medicação, indicar um procedimento sem prova funcional com isquemia de monta é, ao menos, duvidoso.

     E foi a esse respeito que estudo recente novamente chama a atenção para esses aspectos, o da indicação excessiva de procedimentos.

     No Congresso Europeu de Cardiologia em setembro, em Barcelona, foram apresentados os resultados tardios de uma pesquisa alemã, previamente publicada em 2004 no Circulation, que demonstrou que praticar exercícios pode ser melhor do que fazer angioplastia, para alguns pacientes. Os pesquisadores da Universidade de Leipzig, na Alemanha, vêm avaliando o efeito stent comparado à atividade física em pacientes idosos com doença coronariana estável. Somando os dois momentos, os autores acompanharam durantes dois anos 202 homens com mais de 70 anos e angina. Metade passou pela angioplastia e os demais fizeram um programa de atividade física que incluía 20 minutos diários de exercícios na bicicleta ergométrica e uma participação semanal  em um treino de uma hora de exercício supervisionado. Todos os voluntários tomavam medicamentos para controlar a doença.

     Ocorreram 21 eventos cardiovasculares no grupo exercício, e 32 no da angioplastia.

     Além disso, observaram que “…no estudo, a evolução dos pacientes que se exercitaram foi superior…”, como comentou o professor de Educação Física Carlos Eduardo Negrão, diretor da Unidade de Reabilitação Cardiovascular e Fisiologia do Exercício do Instituto do Coração, em São Paulo.

     E, de fato, até os hemodinamicistas concordam, como ponderou o colega Pedro Lemos, do Serviço de Hemodinâmica e Cardiologia Intervencionista, também do Incor “…mas os critérios de exclusão do estudo mostram que talvez muitos dos pacientes acompanhados não precisassem mesmo passar pela angioplastia…”.

     O fato é que, mesmo desnecessária, continua sendo indicada. Vale ressaltar que não se trata de questionar os benefícios da angioplastia, mas o estudo reforça a idéia de que os exercícios não devem ser encarados como coadjuvantes, e sim como parte do tratamento para esses pacientes.

     E, além de todas essas demonstrações, importante é ressaltar que os procedimentos significam custos para o sistema de saúde como um todo. E também é importante ressaltar, que a par de outras revisões realizadas, recente revisão feita da Cochrane constatou que os exercícios conseguem reduzir a mortalidade por doenças cardíacas em 31%.

     Claro que podemos ponderar este estudo apresentado em Barcelona tem limitações, como o pequeno número de pacientes. Só devemos estar a par dos estudos e mostrar aos pacientes que essa é uma opção dentre os vários tratamentos, e que é, sim, eficaz, tanto para os sintomas quanto para reduzir os riscos de morte.