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A influência do exercício físico na atividade cerebral do idoso

13.08.2010

 

Introdução

    O envelhecimento causa diversas alterações orgânicas, fisiológicas, neurológicas e psicológicas. O fator desencadeador deste processo em determinada idade ainda não é conhecido. Por outro lado, são muitas as pesquisas que estudam as suas conseqüências sobre o organismo e sobre a forma de vida das pessoas. Um dos principais objetivos da maioria desses estudos é pela descoberta de uma fórmula para prevenir, minimizar ou até mesmo evitar essas alterações causadas pelo processo de envelhecimento.

    Um grande desafio enfrentado na velhice é a redução das capacidades cognitivas e sensoriais, devido ao envelhecimento também do sistema nervoso que, assim como diversas outras estruturas do corpo humano, começa a reduzir a sua capacidade. Muitos estudos citam a prática de atividade física e a alimentação como determinantes de um envelhecimento saudável. Este artigo de revisão bibliográfica aborda o processo de envelhecimento cerebral, o envolvimento dos órgãos sensoriais como contribuintes para este processo, os conseqüentes sintomas das perdas cerebrais e o papel da atividade física como meio de diminuição e prevenção das conhecidas alterações cerebrais decorrentes da idade. O termo idoso que será bastante utilizado no artigo refere-se aos indivíduos com idade de 60 anos ou mais.

1.     Atividade cerebral e o envelhecimento

    O cérebro faz parte do chamado sistema nervoso central, juntamente com o tronco cerebral e o cerebelo. Ele é composto por dois hemisférios, esquerdo e direito. A sua camada mais externa é denominada córtex cerebral e é composta por neurônios intimamente arranjados. Essa área do cérebro controla a atividade motora e com o auxílio de estímulos das áreas subcorticais, garante que o movimento coordenado ocorra. [12] O bom funcionamento cerebral é condicionado ao bom estado dos neurotransmissores e das células nervosas (neurônios), a uma ótima irrigação sanguínea a estas células e a uma boa utilização da glicose e do oxigênio trazidas pelo sangue. [1]

    Compõem o sistema nervoso, células denominadas neurônios. Estes estão organizados em cadeias e são responsáveis pela transmissão de estímulos que serão decifrados em zonas específicas do cérebro. A conexão entre cada neurônio é chamada de sinapse e é ativada, ou seja, transmite os estímulos elétricos, apenas na presença de neurotransmissores ou mensageiros químicos [1,2].

    O organismo humano interage com o ambiente a sua volta através da percepção de eventos (pelos órgãos do sentido) e respostas internas e externas a essas percepções. O responsável por garantir que este mecanismo de feedback funcione em sincronia, é o sistema nervoso. Essas percepções podem ser, por exemplo, sensações de dores, detecção da temperatura ambiente ou ainda um toque, e as respostas do organismo ocorrem tanto por meio de movimentos voluntários como por liberação de algum hormônio específico pelo sistema endócrino, de acordo com a situação percebida. [2]

    Para determinar as funções e atividades do sistema nervoso, é necessário que algum comprometimento resultante principalmente no controle motor ocorra. Mesmo com estudos avançados nesta área, sabe-se que ainda existe um vasto campo de conhecimento a ser explorado. Na área geriátrica, a grande dúvida é saber se as alterações mentais e motoras observadas nas doenças degenerativas são devido ao processo de envelhecimento de regiões cerebrais que por alguma razão encontra-se em ritmo acelerado ou se caracterizam por processos mórbidos distinto do envelhecimento normal [3].

    A chamada involução do cérebro, que ocorre em indivíduos com idades mais avançadas, desenvolve progressiva e simultaneamente as seguintes alterações: diminuição de irrigação sanguínea cerebral, diminuição do consumo de glicose e oxigênio pelos neurônios, diminuição do número de neurônios no córtex cerebral, modificações nas conexões entre neurônios e diminuição dos neurotransmissores [1].

    Alguns estudos sugerem que esta involução cerebral está relacionada com mudanças químicas no cérebro: uma diminuição de dopamina (componente químico do cérebro associado com prazer) reduziria consequentemente o metabolismo em regiões do cérebro relacionadas com a cognição [18].

    Através do exame neurológico do idoso, podem ser detectadas algumas alterações como diminuição dos reflexos, diminuição dos sentidos (audição, visão, paladar e olfação) e distúrbios de memória que refletem a ação da idade sobre o sistema nervoso. Ainda, através do encefalograma, alterações da atividade elétrica cerebral podem ser detectadas, mesmo não evidenciando deterioração mental [3].

    Existe uma grande perda de neurônios durante a vida humana, mas descobertas recentes da neurociência comprovam que mesmo na faixa etária de 70 anos o cérebro ainda continua produzindo novos neurônios e o cérebro idoso é ainda mais elástico do que se acreditava anteriormente [17]. Uma outra hipótese pesquisada atualmente relaciona danos no DNA (átomos que contém os genes hereditários) com a redução de genes associados ao aprendizado e memória que inicia cedo na vida adulta [19].

2.     Alterações sensoriais decorrentes da idade

    Em função da idade, são detectadas diversas mudanças nas funções perceptivas dos idosos [4]. Podemos destacar como conseqüência dessas alterações, uma deterioração progressiva no desempenho motor especializado.

    A visão, considerada por muitos como o órgão do sentido mais essencial, é prioritariamente afetada. Foram constatadas as seguintes alterações em grande parte da população idosa, descritas e justificadas a seguir:

  1. redução do campo visual: explicada por fatores mecânicos como abaixamento da pálpebra superior e pupila diminuída;

  2. dificuldade de focalização de objetos próximos: é mais lenta a velocidade de acomodação dos olhos em uma alteração do comprimento focal para uma pessoa idosa. Para uma pessoa jovem, um objeto próximo pode ser focalizado acerca de 0,1 m e 1 m para uma pessoa na faixa de 70 anos [5].

  3. diminuição da acuidade visual: o déficit visual ocorre por alterações estruturais e funcionais dos olhos [7].

Ainda devido a problemas como diabetes e hipertensão, manifestam-se o glaucoma1 e problemas na retina que podem levar à cegueira [6]. A catarata, doença comum entre indivíduos idosos, é a opacidade do cristalino, e reduz drasticamente a visão [7].

    A diminuição da capacidade auditiva é considerada por muitos estudiosos da área como um importante motivo da exclusão social do idoso. A maior dificuldade auditiva da pessoa idosa é na detecção de sons de alta freqüência e no aumento do tempo de reação aos sons. Ocorre uma perda progressiva de neurônios receptores, dano ao nervo auditivo e uma deterioração da função no córtex auditivo [5].

    O olfato também é afetado, ocorrendo uma queda gradual na capacidade de identificar corretamente os odores [6].

    O tato, responsável pela informação ao sistema nervoso da temperatura do ambiente externo, sensações de dor e de toque, é sensivelmente diminuído. A diminuição do número de receptores de tato e a degeneração das fibras nervosas associadas são as principais razões para este efeito [5].

    Os órgãos do sentido são responsáveis em grande parte pelas percepções. Quanto menor forem as informações recebidas pelo sistema nervoso, menor será a sua resposta ao ambiente, interno ou externo, e conseqüentemente, menos interações com o meio ao seu redor o indivíduo terá. O idoso exclui-se facilmente caso não seja constantemente estimulado e motivado a participar de atividades na sociedade onde vive.

3.     Cognição, memória, atenção e tempo de reação em idosos

    A psicologia define cognição como sendo o processo através do qual o mundo de significados tem origem, ou seja, através de experiências no meio, o ser humano atribui significados à realidade em que se encontra. Cada nova informação adquirida vai sendo organizada e integrada à estrutura cognitiva já existente [9].

    Pesquisas relacionam o nível de escolaridade dos idosos com a deterioração ou não dos seus aspectos cognitivos. Quanto menor o tempo investido em estudos, maiores são os prejuízos cognitivos, principalmente entre as mulheres [8]. É necessário manter a mente ativa, como por exemplo, através de leituras, para manter as atividades cognitivas em bom funcionamento.

    Estudos demonstram um baixo desempenho de indivíduos idosos em tarefas que requisitem iniciativa, planejamento e avaliação. Estes resultados são interpretados por alguns como deficiência na resolução de problemas, e para outra corrente de pesquisadores, como comprometimento na capacidade de planejar e organizar comportamento. Também se observa a diminuição da capacidade de discernimento entre o relevante e o irrelevante. Para a neuropsicologia, esses déficits são decorrentes de comprometimentos no córtex frontal [3].

    A memória refere-se à retenção de habilidades adquiridas ou de informação [1].Em situações cotidianas os adultos, e especialmente os idosos, podem ter algumas dificuldades de recuperação de memória [10]. Mesmo sendo conseqüência do envelhecimento, a diminuição da eficiência da memória é também influenciada por questões como genética, fatores ambientais, vivências, hábitos lingüísticos, caráter e personalidade [1].

    A memória de curta duração, aquela que guarda as informações de eventos recentes, é mais prejudicada do que a memória de longa duração. Eventos passados são facilmente recordados enquanto que os recentes são de difícil memorização [5].

    A atenção sofre uma alteração bem específica. Com o aumento da idade surge declínio em relação à atenção dividida, que se caracteriza pelo processamento de duas ou mais informações ao mesmo tempo. Por exemplo: prestar atenção em uma leitura e numa conversa ao mesmo tempo [11].

    O tempo que um indivíduo leva para iniciar um movimento é denominado tempo de reação [13]. O tempo de reação dos idosos, principalmente das pessoas com mais de 70 anos, torna-se bastante aumentado. Este fato é causado por uma queda na capacidade de detecção e relato de pequenas mudanças e também pela lentidão a responder a estímulos, sendo que estas respostas têm grande probabilidade de serem imprecisas. Estes efeitos crescem à medida que as tarefas se tornam mais complexas [4]. Ocorre também uma diminuição na vigilância, ou seja, diminui a prontidão que uma pessoa responde a estímulos não freqüentes e imprevisíveis. O tempo de reação ao barulho aumenta consideravelmente [6].

4.     Exercício físico para a saúde mental

    Cada vez mais pesquisas vêm comprovando a premissa de que a prática de algum exercício físico regular tem efeitos benéficos sobre a atividade cerebral do idoso. A Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia orienta a prescrição de práticas de atividade física para doenças neurológicas, como esclerose múltipla e doença de Alzheimer [14]. Esta orientação está baseada nos inúmeros benefícios relatados por alguns estudos da área:

  • A atividade física beneficia a concentração. Octogenários fisicamente ativos parecem mais concentrados e se distraem com menos facilidade do que os sedentários da mesma idade. Estas foram algumas conclusões apresentadas em conferência da Sociedade Norte-Americana para Psicologia do Esporte e Atividade Física, em Hunt Valley, Maryland. Um estilo de vida ativo, mesmo sem prática de atividades intensas ajuda a manter a capacidade de pensar e reagir a situações na velhice. Um dos motivos associados a este benefício, é a melhoria da condição cardiovascular causando um aumento do fluxo de sangue e a oxigenação do cérebro [15]. Outro estudo concluiu que o exercício aeróbio, além de contribuir para a concentração, auxilia na tomada de decisão [20].

  • A qualidade do sono é determinante da saúde mental de todos os indivíduos. Um grande percentual de idosos apresentam distúrbios do sono, principalmente insônia. É comprovado o efeito do exercício físico sobre as horas de sono, a qualidade do sono melhora, contribuindo para a saúde mental do idoso [16].

  • A prevenção da perda de uma importante função controlada pelo sistema nervoso é conseqüência também do hábito do exercício físico, o equilíbrio. Porém pesquisas ainda se mostram controversas na comprovação deste efeito [5].

    Os tipos de exercícios que mais beneficiam a manutenção das atividades cerebrais e a prevenção de uma grande deterioração dessas funções ainda estão estudo, mas os efeitos da prática de exercícios físicos regulares estão amplamente difundidos e aplicam-se também para a população idosa, levando em conta suas limitações e sua diferenciada resposta a esta prática. Alcançando-se uma idade avançada com o hábito diário da prática de exercícios, garante-se, entre outras funções, um bom funcionamento do sistema nervoso, a baixa probabilidade da manifestação de patologias neurológicas e uma relativa qualidade de vida.

Conclusões

    Mesmo com todos os avanços das últimas décadas na área de neurociência, o cérebro em envelhecimento ainda é um mistério para o cientista. O estudo exploratório desta área contribui muito para o cotidiano das pessoas que passam a se conhecer e entender melhor todas as alterações sentidas durante esta fase. Isto resulta em uma maior aceitação de todo o processo e influencia na qualidade de vida dessas pessoas, diminuindo a dificuldade que a maioria dos idosos encontra de se adaptar a este processo.

    Mesmo sendo um aspecto inevitável, o envelhecimento cerebral pode não causar grandes mudanças na vida do idoso caso haja uma preparação prévia para viver esta fase. Leituras, jogos de lógica, exercício da fala e estimulação dos órgãos dos sentidos são alguns exercícios que podem ser feitos, não apenas na idade idosa, para manter o cérebro ativo.

    O profissional que trabalha com esta faixa etária precisa estar ciente dos problemas enfrentados por seus alunos e saber distinguir o envelhecimento natural, do envelhecimento patológico, ou seja, poder reconhecer se o processo pelo qual o indivíduo está passando vem sendo causado de forma natural ou se existe alguma patologia instalada.

    É de extrema importância que os exercícios praticados pelos idosos tenham o objetivo também de manter as capacidades intelectuais além das capacidades físicas. É preciso que seja desenvolvido um trabalho sem que o executante apenas imite ou repita mecanicamente um movimento. Os exercícios devem envolver decisão, deslocamentos, resolução de problemas, memorizações que envolvam espaço e tempo e atividades de percepção do corpo, estimulando e desafiando as capacidades intelectuais.

    Garantindo um envelhecimento saudável do cérebro, através da diminuição da velocidade das perdas neurológicas, assegura-se uma vida com mais interações com o meio a sua volta, evitando a exclusão social, o isolamento, e prevenindo-se assim algumas doenças neurológicas que comprometem a qualidade de vida nesta fase onde toda a experiência adquirida precisa ser então desfrutada e compartilhada com todos.

Nota

  1. O conceito genérico de glaucoma seria aquela condição em que a pressão intra-ocular desregulada ocasionaria lesões progressivas dos nervos ópticos. Pode surgir cegueira irreversível após muitos meses ou anos de doença [3].

Referências bibliográficas

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  3. CARVALHO FILHO, E.T; PAPALÉO NETTO, M. Geriatria: Fundamentos, Clínica e Terapêutica. São Paulo: Atheneu, 2000, 447 p.

  4. SALES, M. B. Desenvolvimento de um Checklist para a Avaliação de Acessibilidade da Web para Usuários Idosos. Florianópolis, 2002. 121f. Dissertação (Mestrado) - Universidade Federal de Santa Catarina.

  5. SHEPARD, R. Envelhecimento, Atividade Física e Saúde. São Paulo: Phorte, 2003. 485 p.

  6. HAYFLICK, L. Como e por que envelhecemos. Rio de Janeiro: Campus, 1997, 366p.

  7. MAZO, G., LOPES, M. A., BENEDETTI, T. B. Atividade Física e o Idoso. Porto Alegre: Sulina, 2001, 240 p.

  8. PIVETTA, M. Retratos do Entardecer. Revista Pesquisa FAPESP, n. 87, maio 2003.

  9. BOCK, A. M. et al. Psicologias. Saraiva: São Paulo: 1999. 368p.

  10. TAVARES FILHO, J. P. A Interação do Idoso com Caixas de Auto-Atendimento Bancário. Florianópolis, 2003. Dissertação (Mestrado) - Universidade Federal de Santa Catarina.

  11. NUNES, R. N. Metodologia para o Ensino de Informática para a Terceira-Idade Aplicada no CEFET/SC. Dissertação submetida ao Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Produção – Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 1999.

  12. GUYTON, A. C. Neurociência Básica: Anatomia e Fisiologia. 2. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1993, 345 p.

  13. MAGILL, Richard A. Aprendizagem Motora: Conceitos e Aplicações. São Paulo: E. Blücher, 2000, 369 p.

  14. NÓBREGA, A.C.L. et al. Posicionamento Oficial da Sociedade Brasileira de Medicina do Esporte e da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia:Atividade Física e Saúde no Idoso. Revista Brasileira de Medicina do Esporte, vol. 5, n. 6, 1999.

  15. Reuters. News. Exercise keeps older people's brains in shape. Disponível em: www.reuters.com. Acesso em: junho, 2004.

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  17. PBS. The Secret Life of The Brain. Disponível: www.pbs.org/wnet/brain/episode5. Acesso em: junho, 2004.

  18. USC Health Magazine. The Aging Brain. Disponível em: www.usc.edu/hsc/info/pr/hmm/spr01/brain.html. Acesso em: junho, 2004.

  19. YANKNER, B. A. et al. Gene regulation and DNA damage in the ageing human brain. Nature, 09 jun 2004.

  20. News Bureau. University of Illinous at Urbana-Champaign. Exercise Sharpen Focus, Decision-Making Among Aging Adults. Publicado em fev 2004. Disponível em: http://www.news.uiuc.edu/news/04/0216exercise.html. Acesso em: jun, 2004.