NOTÍCIAS

Compulsão Alimentar

05.08.2010

Por Prof. Wagner Silva Dantas

Texto escrito pela Dra. Denise Iezzi, Médica do Núcleo Avançado de Obesidade e Distúrbios Alimentares do HSL, esclarecendo aspectos referentes a compulsão alimentar.

Compulsão alimentar é o aumento ocasional da ingestão alimentar. Frequentemente é a tradução clínica de um distúrbio de ansiedade e/ou afetivo. O termo compulsão se refere ao ato de compelir que significa empurrar forçadamente, o que nos sugere que o paciente come sem fome como uma tradução de um distúrbio de apetite. A causa tem origem em múltiplos fatores incluindo genéticos, neuroquímicos, psíquicos e socioculturais. Costuma acometer mais as mulheres (60%), mas a incidência em homens (40%) é maior do que dos outros distúrbios alimentares. É mais comum em brancos, ocidentais e em classe social média ou alta. É o distúrbio alimentar mais frequente que afeta 5% da população mundial com idade entre 30 e 50 anos.
O paciente não se utiliza de diuréticos ou laxantes para compensar o episódio de comer compulsivamente (quando ele se utiliza, caracteriza-se bulimia nervosa) e, portanto não apresenta as complicações relacionadas a esses usos. Como consequência, a tradução clínica do distúrbio não existe em 75% dos casos. Os outros 25% têm obesidade como tradução morfológica. Faz-se então fundamental a história clínica, principalmente na caracterização do hábito alimentar (inventário alimentar completo). Nos Estados Unidos pelo menos 50% desses distúrbios não são diagnosticados.
O comer compulsivo pode ter vários tipos de manifestações clínicas. Pode se caracterizar por ingestão voraz e abusiva seguida de sentimento de culpa (aquilo que os americanos chamam de “binge-eating”), por ingestão voraz apenas de doce sem sentimento de culpa (chamado de “sugar-crave”) e por ingestão voraz de salgado e ou doce sem culpa. Os episódios são recorrentes e apresentam as seguintes características:
•• Comer grande quantidade e em curto período de tempo.
•• Perda de controle durante o episódio.
•• Intensa decepção e tristeza com a compulsão.
•• Pelo menos três dos seguintes comportamentos associados: comer rapidamente, comer até ficar desconfortavelmente cheio, não estar com fome e comer sozinho para evitar constrangimento.
•• Ocorrência da compulsão em pelo menos duas vezes
por semana durante seis meses consecutivos
•• Sem mecanismos para tentar compensar (laxantes, diuréticos, exercícios etc.)
•• Sem anorexia nervosa
A depressão, sensação de fracasso e ansiedade afetam até 70% dos pacientes. Também pode ocorrer abuso de álcool e drogas. Os exames laboratoriais não têm nenhum valor para rastreamento da compulsão, dando frequentemente normais e criando a falsa ilusão ao paciente de que ele não tem nada e está ótimo.
A compulsão alimentar pode ocorrer em certas doenças como as genéticas (Prader-Willi), convulsões de lobo temporal do cérebro, doenças degenerativas do sistema nervoso como Alzheimer e lesões da glândula chamada hipotálamo. Quando existem “pistas”, elas devem ser investigadas e devidamente afastadas.
O tratamento da compulsão deve ser multidisciplinar com endocrinologista, psiquiatra, psicólogo e nutricionista. Assim, o endocrinologista deve fazer o diagnóstico por meio da anmnese, inventário alimentar completo e pesquisa de doenças associadas. O psiquiatra deverá avaliar a necessidade de tratamento com antidepressivos; o psicólogo poderá propor psicoterapia ou terapia comportamental e apoio familiar e o nutricionista, propor estratégias de cardápio para evitar
a compulsão como comer com frequência, sugerir alimentos agradáveis no cardápio e incentivar o paciente a fazer inventário alimentar completo para que não perca o controle sobre o que come.
A importância do tratamento está na abordagem multidisciplinar com boa interação entre os profissionais para a cura do paciente.